Guaraná, planta de origem divina, símbolo de resistência

O guaraná é originário do Baixo Amazonas, mais precisamente do Brasil, onde cresce em abundância. Cultivada em poucos locais do continente sul-americano, esta planta só é conhecida na Europa desde 1817. Guaraná é um nome brasileiro que deriva do nome da tribo Guarani, originária da Amazónia.

O que é o guaraná?

O género Paullinia, que inclui cerca de 180 espécies, é famoso pela sua utilização tradicional pelos ameríndios, em particular 40 espécies. Entre elas, a Paullinia CupanaH.B.K. var. sorbilis, da família Sapindaceae, é uma trepadeira lenhosa que cresce até 15 metros. Caracteriza-se por caules de 4 a 8 mm de diâmetro, com gavinhas e sulcos profundos. A planta tem folhas alternas, compostas, imparipinadas, com 20 a 40 cm de comprimento e 5 folíolos. As suas flores unissexuais, brancas, zigomórficas, formam inflorescências axilares.

Os frutos são cápsulas elipsoidais com 2 a 3 cm de comprimento, contendo geralmente três sementes ovóides sem albume, rodeadas por um arilo esbranquiçado. Quando maduros, os frutos assemelham-se a um olho, o que os torna compatíveis com as lendas ameríndias. O guaraná cresce em regiões onde as temperaturas variam entre 21 e 26,5°C, com precipitação anual de cerca de 250 mm e humidade relativa de 80% a 86%. Originário da bacia amazónica, é cultivado principalmente no baixo Amazonas, sobretudo no estado do Amazonas.

Em termos de composição química, as sementes de guaraná são particularmente ricas em fibras e metilxantinas, nomeadamente a cafeína. A concentração de cafeína é extremamente elevada, com cerca de 4 g’100g-1, ou seja, quatro vezes mais do que no café em grão. A cafeína está presente em toda a planta, incluindo as folhas. A teofilina e a teobromina estão igualmente presentes em menor quantidade.

Por fim, o guaraná contém cerca de 5g 100g-1 de taninos e saponinas, que influenciam a sua atividade estimulante. Quando consumida em , a semente é utilizada pelas suas propriedades estimulantes. O guaraná é também uma fonte industrial de cafeína e um material vegetal crucial para o estudo da biossíntese da cafeína.

Um pouco de história

Os Guaranis atribuem origens divinas a esta planta, a primeira das quais se diz ter vindo não de uma semente, mas dos olhos de uma criança divina morta por uma cobra. Isso pode ter algo a ver com o facto de a árvore ter sido divinizada. A divindade teria querido perpetuar a força vital destruída em benefício da humanidade. Muito antes de os botânicos europeus estudarem a planta, o guaraná era uma bebida que a tribo dos Manés preparava em segredo. Era desta bebida que retiravam a sua força e longevidade, continuando a atribuir-lhe origens e poderes divinos.

Os ameríndios foram os primeiros a descobrir os efeitos medicinais do guaraná, que já era utilizado na época pré-colombiana.

As sementes são ligeiramente torradas e fermentadas. Na Amazónia, a pasta é preparada desde tempos remotos, esmagando as amêndoas com água. É apresentada sob a forma de paus ou tartarugas, símbolo de resistência. Depois de moldadas, estas formas são secas ao sol ou no forno antes de serem consumidas. Nesta região do Brasil, a pasta é utilizada para fazer bebidas refrescantes e revigorantes.

Tradicionalmente, um pau de guaraná é ralado numa cabaça com a língua seca de um peixe gigante, o pirarucu, que habita a bacia amazónica. Este processo é efectuado todas as manhãs para obter o equivalente a uma colher de chá de guaraná em pó, ao qual se junta água suficiente. Depois de se certificar de que todo o pó foi devidamente dissolvido, a bebida é tomada com o estômago vazio.

No início do século XVIII, o médico alemão Christian-François Paullini descobriu a planta e deu-lhe o seu nome científico. A Europa desenvolveu a sua utilização no final do século XIX. O guaraná foi então incluído na Farmacopeia e reconhecido pelas suas propriedades estimulantes.

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